sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Técnica de retirar cárie sem anestesia ou broca é utilizada no Brasil


Enfrentar a cadeira do dentista já é de dar medo em muito marmanjo, imagina então se o paciente é uma criança. Mas é possível retirar a cárie sem usar a broca, aquele instrumento que perfura o dente e faz um barulho de arrepiar. A técnica é bem simples, e é chamada Tratamento Restaurador Atraumático — ART, pela sigla em inglês. Não é nenhuma novidade na odontologia, mas após ser esquecida por um bom tempo começou a tomar fôlego nos últimos anos no Brasil e em vários países do mundo.

A ART foi inventada na década de 1980 pelo pesquisador holandês Jô Frencken, que estava na África e não tinha como realizar o tratamento odontológico convencional em comunidades carentes, onde, muitas vezes, nem havia energia elétrica. A solução quase sempre era a extração do dente, o que angustiava o dentista — por saber que era possível recuperá-lo. Foi então que teve a ideia de utilizar um material chamado ionômero de vidro, em substituição às tradicionais amálgama e resina, materiais utilizados nas obturações convencionais.

“Uma vantagem dessa técnica é que o ionômero libera flúor continuamente e endurece rapidamente (de três a quatro minutos), sem precisar do fotomolimerizador (aparelho elétrico que emite luz azul que ajuda a secar a resina)”, explica Soraya Coelho Leal, professora de odontopediatria da Universidade de Brasília (UnB), e coordenadora de uma pesquisa realizada em parceria com a Universidade Radboud, na Holanda, onde atua o pesquisador Frencken.

O estudo vai quantificar o custo-benefício da nova técnica em relação aos tratamentos com amálgama e resina. Para isso, a equipe já iniciou um acompanhamento de longo prazo com crianças do Paranoá, de 6 e 7 anos, na periferia de Brasília. Os primeiros resultados serão divulgados em 2012, após observadas a reação dos pequenos pacientes ao novo tratamento e a durabilidade da restauração.

Na América Latina, o México é o país em que o ART está mais largamente difundido. Desde 2002, faz parte do programa oficial de saúde do governo. Em novembro, o país apresenta os resultados na população em um congresso que será realizado na Venezuela para comemorar os 20 anos de aplicação da nova técnica. No Brasil, os primeiros tratamentos dentários ART são da década de 1980 em Bauru (SP).

Em 2006, a técnica passou a ser adotada pelo Ministério da Saúde no programa Saúde da Família, como estratégia para ampliar o acesso à assistência. “É um tratamento rápido, com resultado semelhante ao de outras técnicas, e que nos dá tempo para investir em outras frentes no programa de saúde bucal”, explica Gilberto Pucca, coordenador Nacional de Saúde Bucal do Ministério da Saúde. Atualmente, 18 mil equipes do programa Brasil Sorridente aplicam a técnica ART pelas cidades brasileiras. As famílias carentes ainda recebem kit com creme dental e escova para prevenir novas cáries — 80 milhões de kits serão distribuídos.

Triste realidade
Por não utilizar a broca e quase sempre dispensar a anestesia, o ART é bastante agradável, principalmente para as crianças e os seus dentes de leite. Sarah Gondim tinha 2 anos e meio em fevereiro e suportou bem o tratamento para retirar as cáries nos dentinhos da frente, provocadas pela mamadeira na hora de dormir. “A filosofia dessa técnica é justamente remover o que é necessário da cárie. O tecido mais profundo, que está amolecido, e não tem grande grande quantidade de bactéria, permanece no dente, porque o organismo consegue remineralizá-lo”, explica Rodrigo Guedes Amorim, odontopediatra que emprega, desde 2002, a técnica em seu consultório, na 910 Sul.

Somente em crianças com limiar de dor mais presente é que se emprega a anestesia. Caso do irmão de Sarah. “Semana passada, tive de colocar remédio de dor de dente para ele suportar a dor”, conta Valdete Gondim, avó de Daniel, 6 anos. O menino vai precisar fazer tratamento de canal. “A gente que é pobre, é uma coisa e outra, e vai deixando pra depois. O resultado é um dente quase acabado”, explica a senhora de 56 anos, que mora em Samambaia.

O depoimento serve de alerta: não se pode negligenciar a cárie no dente de leite só porque ele vai dar lugar a outro. O dente provisório não deve ser extraído precocemente porque mantém o espaço para o definitivo, sem falar que a cárie aumenta o nível de bactérias na boca, o que é um prejuízo para quando os dentes permanentes nascerem. “E o mais grave é que a infecção do dente de leite cariado pode passar para o permanente que está em formação, que pode nem nascer ou ter alteração no formato e na cor”, explica Rodrigo.

Em média, uma criança brasileira de 3 anos ou menos já tem, pelo menos, um dente cariado. Aos cinco anos, a média aumenta para quase três dentes atacados, segundo os dados da última pesquisa do Ministério da Saúde sobre as condições da saúde bucal do brasileiro.

Fonte: Correio Braziliense

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